Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

Caminho brasileiro

O Mapa do Caminho aprovado ontem foi comemorado pela delegação brasileira como uma vitória em vários sentidos. Primeiro, porque a idéia de negociar compromissos para os países em desenvolvimento sob um "trilho" diferente do de Kyoto havia sido idéia brasileira (e um diplomata brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo Machado, presidirá o grupo de trabalho que cuidará do Diálogo a partir do ano que vem).

Depois, porque uma articulação entre Brasil e África do Sul, que depois passou a contar com o apoio da China, ajudou a colocar no texto os compromissos "mensuráveis, reportáveis e verificáveis" para os países em desenvolvimento, minando a estratégia dos EUA de não se mover se os países pobres não se movessem antes.

Finalmente, porque a redução do desmatamento foi considerada pela primeira vez como uma ferramenta de mitigação do aquecimento global.

Um dos textos do pacote de resoluções apresentado ontem se refere especificamente à REDD, ou a redução de emissões por desmatamento e degradação de florestas nos países em desenvolvimento. É um tema crucial, já que a perda de florestas tropicais responde por cerca de 15% das emissões globais de gás carbônico, mas que havia ficado fora do Protocolo de Kyoto _ironicamente, por pressão brasileira.

O Brasil era contrário a inserir o desmatamento no mercado de carbono por razões de soberania (não queria "vender" a Amazônia à verificação estrangeira, o que aconteceria no caso) e por achar que os créditos baratos vindos das florestas inundariam o mercado, abrindo uma porta fácil para os países desenvolvidos não cumprirem suas obrigações de descarbonizar a economia.

Tal resistência, nos últimos anos, começou a bater de frente com uma proposta liderada por Papua-Nova Guiné e Costa Rica para comercializar créditos pelo desmatmento evitado. Em Bali, os dois lados se enfrentaram. E venceu o meio-termo: no Mapa do Caminho, os mercados não são mencionados explicitamente, mas é feita uma referência a "incentivos positivos e políticas" para REDD. Ou seja, doações voluntárias, na linha que os brasileiros queriam, para quem conseguir provar que reduziu o desmatamento.

Não está descartada ainda a participação de mercados no futuro regime de REDD. Instituições como o Banco Mundial já começam a apostar nisso e a montar fundos-piloto para comércio de carbono florestal. O próprio Brasil, a julgar por declarações recentes do ministro Celso Amorim, também tem estado mais flexível à idéia.

O debate sobre esses mecanismos começa em março.

Escrito por Bali 40 graus às 18h56

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O mapa, finalmente?

Está pronto o texto do Mapa do Caminho de Bali, mas ainda não se sabe se ele será realmente adotado. A negociação se estendeu até as três da manhã, e o resultado foi um preâmbulo significativamente aguado. Não há menção a metas, nem de médio, nem de longo prazo. O que ficou no lugar foi uma nota de rodapé (estou falando sério) remetendo a duas páginas do sumário técnico e a uma do capítulo 13 do relatório de mitigação do IPCC, o painel do clima da ONU. As partes referidas apresentam os cenários de estabilização e a quantidade de gás carbônico a ser reduzida para obter cada um deles, mas não se fala em 2 graus Celsius como temperatura máxima a atingir para evitar a mudança climática perigosa.

A sessão plenária que deveria bater o martelo no texto foi suspensa às 9h10 de Bali (23h10 de sexta no Brasil) a pedido da China, que achou prematuro decidir qualquer coisa agora.

Prematuro! Fala sério.

Escrito por Bali 40 graus às 23h32

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Terra arrasada

É quase meia-noite no Centro Internacional de Convenções de Bali. A visão é desoladora. Pessoas caídas pelo chão, dormindo a sono solto em poltronas, alguns tentando festejar alguma coisa no único café ainda aberto do prédio. Em comum só a exaustão de quem passou duas semanas tentando costurar um acordo e corre o risco de virar a madrugada aqui para produzir um fiasco.

Um grupo de ministros de 15 países, encabeçado por Austrália e Argentina, bate cabeça numa sala reservada para tentar um acordo que salve o Mapa do Caminho de Bali e possa lançar as negociações rumo ao substituto do Protocolo de Kyoto (e à salvação do planmeta dos piores efeitos da mudança climática). À meia-noite, esse grupo pronunciará o veredicto para a plenária: ou temos acordo ou deixamos para amanhã de manhã uma decisão. Agora, o Canadá resolveu pular para o lado dos Estados Unidos e bancar o tira mau - para tirar um pouco a pressão sobre a delegação americana. Disse que aceita metas de longo prazo e aceita os 25% a 40% de redução até 2020 para os países ricos... desde que os países em desenvolvimento aceitem metas obrigatórias. A China chiou. Mais cedo, o embaixador do Paquistão, falando a jornalistas em nome do G77 (grupo dos países em desenvolvimento, ao qual pertence o Brasil), dissera que o grupo estava sofrendo "ameaças" para aceitar metas. É nesse clima de discórdia total que a conferência do clima de Bali chega a suas horas finais.

O Canadá, aliás, ganhou o Fóssil do Dia por se comportar "como o 51o. Estado dos EUA". E os EUA ganharam o Fóssil do Ano, por... bem, se comportarem como os EUA.

Ban-ki Moon deverá voltar a Bali amanhã de manhã, para anunciar o que quer que seja. Seria muita coragem do secretário-geral assumir um fracasso, portanto esperemos que ele venha para anunciar um acordo - sólido e amplo, como todos

 

Escrito por Bali 40 graus às 14h06

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"Estamos chegando perto", diz Lagos

O enviado especial de Ban-ki Moon para Mudança do Clima, Ricardo Lagos, disse a este blogueiro que as negociações do Mapa do Caminho estão "chegando perto" de resolver o impasse sobre metas. A nova carta sobre a mesa é aparentemente um detalhe insignificante, mas que nos meandros do diplomatês faz toda a diferença: inserir no texto do preâmbulo do Diálogo para a Implementação da Convenção (uma espécie de lei complementar que determina como os princípios da Convenção do Clima serão seguidos) a expressão "em relação aos níveis de 1990" no parágrafo que fala de um objetivo de longo prazo de reduzir as emissões em 50% até o meio do século.

A jogada é uma maneira de conciliar a resistência dos EUA à meta de médio prazo de 25% a 40% de redução de emissões até 2020 (que deve mesmo ficar fora do texto final do Mapa do Caminho de Bali, o pontapé inicial para o substituto do Protocolo de Kyoto) com a necessidade da humanidade de sobreviver ao efeito estufa. Inserir a barra de 1990 no texto significa que os americanos precisarão se comprometer a um corte de emissões mais drástico do que aquilo que eles estavam esperando.

Lagos disse também que os EUA não estão dispostos a micar como o país que melou Bali, e que a ameaça do ministro do Meio Ambiente alemão, Sigmar Gabriel, de boicotar o encontro das grandes economias convodado por Bush em Honolulu no começo do ano que vem causou "um abalo" em Wasgington.

O quebra-pau continua na plenária.

 

Escrito por Bali 40 graus às 08h08

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Bali, 400 graus

Ao mesmo tempo em que o circo da COP-13 é desmontado no Centro de Convenções de Bali, a movimentação nos corredores e nas reuniões de diplomatas se intensifica. Todos correm contra o relógio para tentar costurar um acordo político de última hora e evitar que a conferência do clima termine em fracasso. Negociadores bateram cabeça até as três e quinze da manhã para produzir um texto aguado, sem menção às metas de 25% a 40% de redução de emissões em 2020 e sem um calendário de negociações. Ainda assim, o texto ficou melhor que a proposta apresentada pelos EUA à uma, que era de compromissos nacionais voluntários - essencialmente, cada um faz o que quer e quando quer, o que dispensaria a necessidade de uma convenção internacional.

O discurso de Al Gore ontem à noite, denunciando publicamente os EUA como o principal responsável por obstruir os avanços em Bali, repercutiu do Herald Tribune à CNN e fez Washington ligar para a delegação na Indonésia e mandar avisar que os EUA não levariam a culpa por um fracasso na COP. Como isso se traduzirá em ação, no entanto, não está claro.

Yvo de Boer, secretário-executivo da Convenção do Clima, disse que é possível que Bali fracasse, mas que isso não acontecerá. "Ninguém quer ser o país que provocou o fracasso deste processo". Em todo caso, Boer desaconselhou os delegados a marcar seus vôos de volta para antes de sávado à noite. A madrugada balinesa promete ser longa. E quente, em todos os sentidos. 

Escrito por Bali 40 graus às 06h24

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Cheiro de enxofre no ar

São 19h20 em Nusa Dua e o vilão da COP-13 finalmente apareceu. Os ministros estão quebrando o pau a portas fechadas para fechar o texto do Diálogo, que definirá o "mapa do caminho". Um país bloqueia todas as decisões. Adivinhem qual é?

Pois é. Hoje a União Européia já subiu o tom e ameaçou não comparecer ao encontro das grandes economias convocado por George W. Bush para acontecer em Honolulu no começo do ano que vem. O Brasil diz que não descarta faltar ao encontro também. Vamos ver se a pressão surte efeito.

Escrito por Bali 40 graus às 09h25

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Blairo Schwarzemaggi

Ciente de que aparecer na capa do "New York Times" como o "estuprador da floresta" é ruim para suas ambições políticas nacionais em tempos de atenção total ao ambiente, o governador de Mato Grosso e rei da soja, Blairo Borges Maggi, veio a Bali delinear sua recém-despertada vocação para o verde (e não é o verde dos pés de soja). Sentou-se ao lado de Marina Silva, sua antiga arquirrival, e assinou ontem um acordo com a ONG The Nature Conservancy para captar US$ 15 milhões e colocar todas as propriedades rurais de seu Estado no SLAPR, o sistema de licenciamento rural que permite mapear por satélite desmatamentos ilegais.

Disse que na área de soja "não existe mais vontade de abrir novas áreas" de floresta, insistiu que apenas 1,2% da área plantada com o grão está na floresta - "o resto é cerrado" (na definição peculiar de cerrado do governo mato-grossense, que inclui vastas áreas na região do Parque do Xingu) e, a notícia do dia, afirmou que Mato Grosso será um Estado "neutro em carbono". Sim, você leu isso: depois das Nações Unidas, da Nova Zelândia e da Costa Rica, Mato Grosso, um dos campeões nacionais de desmatamento, será neutro em carbono.

Instado a detalhar sua visão, o governador declarou: "Nós queremos fazer com o que nós emitimos para produzir nós captamos da floresta ou em outras formas de consumo, como os biocombustíveis".

Escrito por Bali 40 graus às 04h26

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Curtas

SABOTAGEM

A resistência dos Estados Unidos ameaça deixar de fora do mandato de Bali a menção aos objetivos de redução de emissões de 25% a 40% até 2020 para os países industrializados. Na noite de ontem, os EUA se opuseram a um texto sobre redução de desmatamento tropical com o qual os próprios EUA já tinham concordado. ONGs especulam que a estratégia do governo Bush seja enfraquecer Bali para encher a bola do encontro das grandes economias. Os convites para o segundo evento da série, no começo de 2008, já foram enviados.

 

DIPLOMACIA DO ÁLCOOL

Em seu discurso hoje na COP-13, Celso Amorim não perdeu a oportunidade de vender a obsessão do presidente Lula: os biocombustíveis, que “apresentam um grande potencial, ainda inexplorado, para reduzir as emissões de gases do efeito estufa”.

 

CARBONO NEUTRO

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban-ki Moon, anunciou hoje que a organização irá neutralizar o carbono emitido por suas atividades _como as viagens de avião. Como um único delegado que se desloque da América do Sul para a Indonésia emite mais carbono do que a média de um cidadão de país pobre, o esforço vem em boa hora.

Escrito por Bali 40 graus às 20h16

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Esplendor americano

Depois de uma semana meio apagadinhos, quase apáticos, os delegados dos Estados Unidos voltaram a brilhar na conferência do clima. Faturaram ontem (hoje de manhã no Brasil) o "megafóssil do dia", prêmio às avessas concedido por uma rede de ONGs a quem mais atrapalha a negociação para salvar o mundo, "por uma série de malfeitos": 

- Os EUA declararam que a Convenção do Clima da ONU, a UNFCCC, sob os auspícios da qual se realiza o encontro de Bali, "não é uma convenção de desenvolvimento sustentável";

- Tentaram desacreditar o IPCC (aquele painel de 2.500 cientistas que levou o Nobel da Paz), dizendo que "muitas incertezas" cercam seu diagnóstico do estado do clima, o AR4;

- Disseram que incluir metas ambiciosas no "mapa do caminho" de Bali para países desenvolvidos seria "começar com uma resposta predeterminada".

- Disseram que uma meta de 25% a 40% é "totalmente irreal para muitos países".

Escrito por Bali 40 graus às 23h19

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Frase do dia

De Stavros Dimas, comissário europeu para o Meio Ambiente, questionado em uma entrevista coletiva sobre se a Europa estava "isolada" em sua obsessão por metas obrigatórias para o futuro:

"Não estamos isolados, porque a maior parte das pessoas no mundo quer lutar contra a mudança climática."

Escrito por Bali 40 graus às 05h59

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Por um triz

A menção, no acordo que está sendo negociado em Bali, de metas de redução de 25% a 40% das emissões de gás carbônico até 2020 em relação a 1990 para os países desenvolvidos, quase foi limada do texto. O pedido para incluí-las havia sido da (quem mais?) União Européia, mas o bloco do "não me comprometam" (formado por EUA, Canadá, Japão e Austrália) vetou. Como essas metas são basicamente a coisa mais importante que pode sair do texto final do "mapa do caminho" de Bali, por um momento o texto se tornou, para ser direto, inócuo - já que todas as decisões no âmbito da ONU são por consenso, uma oposição basta para melar tudo.

O espantoso é que o G77, o bloco dos países SUBdesenvolvidos, apoiou o pedido de retirada da menção a metas. Certamente antevendo que terá de cumpri-las num futuro não muito distante. Os europeus tentaram reinseri-la, mas a Índia vetou. "O lobo tirou a pele de cordeiro", indignou-se Marcelo Furtado, do Greenpeace.

Felizmente a coisa não parou por aí. Depois das 22h de ontem, as metas voltaram ao texto. 

 

Escrito por Bali 40 graus às 05h34

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Tira bom, tira mau

Uma tática de negociação clássica na diplomacia é mandar uma linha de frente para dizer "não" a tudo e depois um oficial mais graduado para contemporizar e dizer "mais ou menos". A delegação brasileira em Bali não escapou à regra.

Os negociadores da redução de emissões por desmatamento (RED), tópico do "mapa do caminho" que mais interessa ao Brasil, chegaram aqui com uma postura clara: não à inclusão de degradação de matas na contabilidade das emissões a serem reduzidas, não à inclusão de conservação de florestas (ou seja, considerar o estoque florestal total de um país como passível de compensação), não a mercado de carbono.

A chegada do ministro Celso Amorim (relações Exteriores) no fim-de-semana para chefiar a delegação já mudou bastante as coisas. Amorim instruiu o embaixador Everton Vargas, subsecretário-geral para Assuntos Políticos do Itamaraty, a tentar remendar o racha no G77 (grupo dos países em desenvolvimento) sobre a questão florestal. De imediato, já se acordou que degradação de florestas entra no "mapa do caminho". Segundo o embaixador Sérgio Serra, porta-voz da delegação brasileira, o Brasil também topa discutir conservação.

Continua considerando "inaceitável", no entanto, o trecho no texto proposto pelo grupo que discute REDD que fala em mecanismo de mercado para carbono de REDD, o tal "crédito de carbono de florestas". Vamos ver se essa posição também não será "flexibilizada".

 

Escrito por Bali 40 graus às 05h24

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Bali define fundo de adaptação

O primeiro grande resultado concreto da COP-13, a Conferência do Clima de Bali, saiu ontem à noite (hora de Bali, manhã no Brasil). Os delegados reunidos em Nusa Dua definiram a montagem de um fundo de adaptação, destinado a ajudar países do Terceiro Mundo a fazer o inevitável: preparar-se para suportar os impactos da mudança climática em suas cidades, em seus ecossistemas e principalmente em sua agricultura.

O fundo havia sido sugerido três anos atrás, na COP de Buenos Aires, e sua aprovação vinha sendo objeto de idas e vindas até agora. Segundo o texto, o fundo financiará "projetos e programas concretos de adaptação... baseados nas necessidades, visões e prioridades das partes elegíveis". Ainda não se falou em dinheiro, mas, dado o ritmo notavelmente lento de tudo o que diz respeito às Nações Unidas, a mera sinalização de que os países ricos estão dispostos a abrir a carteira (o que, de resto, é uma obrigação deles pela Convenção do Clima) já foi uma vitória, e valeu o aplauso ouvido ao final da plenária.

Foi definido que o secretariado do fundo será interinamente gerido pelo GEF (Global environmental Facility), um instrumento criado pela Eco-92 no Banco Mundial e que recebe críticas de ONGs por sua ineficiência. Os ambientalistas temem que, debaixo do GEF, o dinheiro para adaptação acabe saindo do controle, já que o órgão costuma aplicar as diretrizes do Banco Mundial - e não da Convenção do Clima - em seus financiamentos.

Para resolver a questão, a COP-13 definiu um esquema híbrido: um comitê de 16 membros será designado pela Convenção para decidir como e onde o dinheiro será gasto, e o Banco Mundial simplesmente cuidará da burocracia.

Um início auspicioso para os três dias finais da conferência, o chamado segmento de alto nível (que começa na quarta), no qual os ministros baterão o martelo sobre o "mapa do caminho" - e o futuro do planeta.

 

Escrito por Bali 40 graus às 05h11

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Nusa Dua em chamas

Bali começou a esquentar hoje, e não é de temperatura do ar (porque essa não tem como subir mais) do que eu estou falando. Hoje começou a fase decisiva da COP-13, e parece que o mundo inteiro despencou de uma vez em Nusa Dua.

A começar do trânsito, incrivelmente intenso para um resort. Depois, filas para passar nas máquinas de raio-X que existem na entrada de todos os hotéis que abrigam a conferência. Filas para táxi. Centro de imprensa lotado pela primeira vez (só jornalistas são 2.000 os esperados para esta semana). E personalidades que começam a chegar, de Peter Garrett, ministro do Meio Ambiente da Austrália (mais conhecido como o vocalista careca da banda Midnight Oil), ao presidente Susilo Bambung, da Indonésia, ao senador americano John Kerry, a Ban-ki Moon e Nicholas Stern. Sem contar com a galera que não estará aqui exatamente em atividade diplomática, como Bianca Jagger e Leonaddo Di Caprio.

E para acompanhar isso tudo?

 

 

Escrito por Bali 40 graus às 02h02

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Brasil é oitavo na proteção do clima

O Brasil foi pelo segundo ano consecutivo o oitavo país que mais fez pela proteção do clima num ranking dos 56 maiores emissores do mundo. O relatório, divulgado em Bali pela organização Germanwatch, põe a Suécia em primeiro lugar e a Arábia Saudita em último. Até aí, nada de espantoso. A surpresa (para alguns) é que os EUA aparecem em penúltimo, só um pouquinho acima dos árabes, e a Índia – um dos países nos quais o consumo de carvão mais cresce – fica em quinto, acima do Brasil e do Reino Unido, uma das poucas nações ricas que cumprirão sua meta no Protocolo de Kyoto.

 

O relatório é conhecido como Climate Change Performance Index, ou índice de desempenho em mudança climática (CCPI, na sigla em inglês). Sua primeira versão foi divulgada no ano passado, na COP de Nairóbi. Ele analisa a situação do combate ao aquecimento global nas nações que respondem por 90% das emissões mundiais, e com base nessa análise atribui pontos em três grandes indicadores: tendência atual de emissões, nível de emissões e política climática.

 

 

Com base na pontuação, os países são divididos em desempenho muito bom, bom, regular, ruim e muito ruim. Na lanterna estão Rússia (43,9 pontos) Coréia do Sul (41,3), Luxemburgo (39,2), Canadá (37,6), Austrália (35,5), EUA (33,4) e Arábia Saudita (30). No topo da lista, Suécia (65,6), Alemanha (64,5), a campeã de desenvolvimento humano Islândia (62,2), México (62,5) e Índia (62,4).

 

Os indianos têm quase o dobro de pontos dos EUA e estão 15 pontos acima da China, seu par mais próximo na Ásia em termos de população e perfil energético. Por que os EUA de George W. Bush, que andam bradando aos quatro ventos que estão levando a mudança climática a sério, que diminuíram sua intensidade energética etc., ficaram tão mal na fita? E por que os indianos, que constroem uma usina termelétrica a carvão por mês, praticamente, estão tão bem?

 

A resposta está na metodologia algo subjetiva e algo enviesada usada pelo Germanwatch. Os EUA estão em penúltimo porque políticas públicas nacionais de proteção do clima contam pontos no CCPI – e a superpotência não tem nenhuma, por mais que trombeteie Baby Bush. Já a Índia está lá em cima não porque tenha feito esforços para salvar o planeta (ao contrário, aqui em Bali os indianos só têm feito melar as negociações), mas porque sua população cresce muito mais rápido do que seu PIB, então o índice de emissões per capita é baixo. Ora, isso pode até ser bom para o clima, mas é péssimo para a Índia. Os chineses pelo menos estão vendo a poluição se refletir em riqueza, amparados, claro, por uma política rígida de controle de natalidade.

 

E o Brasil? Bem, esse é mais um viés esquisito do Germanwatch. Países que têm mais de 10% de suas emissões decorrentes de uso da terra (no caso brasileiro, 75% delas vêm do desmatamento) não “contam” no CCPI, portanto o Brasil e a Indonésia acabam ganhando, imerecidamente, destaque entre os grandes emissores mais zelosos com o clima.

Escrito por Bali 40 graus às 00h38

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PERFIL

Claudio Angelo Claudio Angelo, 32, é editor de Ciência da Folha. Jornalista formado pela Universidade de São Paulo, cobre assuntos de ciência e ambiente desde 1998.

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