Bali 40 graus - Despachos da Conferência do Clima
 

Errei

É Thiago Poggio, e não Poggia, o nome do sem-mala do Itamaraty. E o pobre coitado ainda não havia recebido a dita cuja ontem. Ela só chegou hoje. Mas, escaldado em viagens pela Air France, o diplomata havia trazido roupas na bagagem de mão. Lição que eu não hei de esquecer.

 

Escrito por Bali 40 graus às 12h47

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Abalou?

Um terremoto de 5,9 graus na escala Richter atingiu ontem a ilha de Bali. O epicentro estava a 250 quilômetros daqui, no mar de Java, ilha indonésia que abriga a capital, Jacarta.

Pergunte agora se os mais de 10 mil delegados presentes à COP-13 sentiram o tremor. "Houve um terremoto?", perguntou um deles, segundo o Earth Negotiations Bulletin. Eu mesmo soube pelas agências de notícias. Pra não dizer que não senti nada, nadinha, fiquei tonto por uma fração de segundo por volta do meio-dia, mas não sabia se era fome, jet-lag residual ou calor. Dizem que terremoto dá tontura. Não sei. Pelo visto, terei de esperar o próximo. O que não deve demorar, já que Bali está em pleno Cinturão de Fogo do Pacífico, zona de contato entre placas tectônicas e propensa a terremotos e vulcões.

Escrito por Bali 40 graus às 06h04

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Movimento dos sem-mala - novos sócios

Thiago Poggia, do Ministério das Relações Exteriores, e Aspásia Camargo, vereadora do Rio de Janeiro, também chegaram a Bali com a roupa do corpo. Ambos já recuperaram suas malas, thanks for asking. Mas tem alguma coisa muito errada nisso.

Escrito por Bali 40 graus às 13h14

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Surpresa

Dez horas de fuso horário à frente de Lula, os delegados brasileiros ficaram sabendo pelos jornalistas da queda de 20% no desmatamento na Amazônia. A pergunta que não quer calar agora é o que Marina Silva anunciará quando vier para Bali. Pacote de medidas contra o aquecimento global? Fundo de royalties de petróleo para ações de mitigação? Revisão do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento? 

Escrito por Bali 40 graus às 13h12

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Blame Canada!

"Culpe o Canadá!" Não resisto a citar o refrão da música-tema do filme South Park, que descreve os canadenses como mentirosos de olhinhos miúdos. Hoje o governo de Stephen Harper levou em Bali o prêmio Fóssil do Dia, por se recusar a assumir metas absolutas de emissão de gases de efeito estufa para depois de 2012 se os países em desenvolvimento não fizerem a mesma coisa. O Canadá também dividiu com os EUA o terceiro lugar na premiação às avessas das ONGs por pregar as maravilhas da tecnologia na resolução da crise climática (desde que seja tecnologia deles, é claro) e se fingirem de mortos quando os países pobres pedem dinheiro para implementar tecnologias verdes.

O Canadá, aliás, é uma incerteza cada vez maior na COP-13. Especula-se que a jogada de colocar países ricos e pobres para negociar compromissos em "trilhos" diferentes (os ricos sob o Protocolo de Kyoto, obrigados a metas, e os pobres sob a Convenção do Clima, com compromissos verificáveis mas sem metas vinculantes) possa acabar saindo pela culatra, pois abre um flanco para países que não adotaram Kyoto (leia-se EUA) a não entrarem no protocolo, ficando na confortável posição de reduzir emissões pela Convenção. E um flanco para países que adotaram Kyoto, como Canadá e Japão, a "pularem a cerca", nas palavras de um delegado brasileiro, e desencanarem de compromissos vinculantes futuros.

Escrito por Bali 40 graus às 10h04

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Neutralizando omissões

O trocadilho genial é o mote da newsletter Alter-ECO, que começou a circular em Bali. Ela é produzida por um grupo que é uma espécie de PSOL do ambientalismo climático, a esquerda da esquerda. O próprio título é um trocadilho com o ECO, um boletim da rede de ONGs Climate Action Network - que, a julgar pelas opiniões do pessoal do Alter-ECo, anda chapa-branca demais.

A segunda edição do boletim traz a denúncia que mais vai chocar os delegados em Bali: há uma "verdade suja" por trás das bicicletas que a organização do evento arrumou para reduzir a pegada ecológica da COP-13 (já comentadas aqui). E a verdade é que as bicicletas são patrocidadas pela maior firma privada de energia da Indonésia, a Medco Energi, cuja ficha corrida ambiental não é, digamos, muito exemplar. A empresa trabalha no setor de óleo e gás, fecha um contrato para construir a primeira central nuclear da Indonésia e tem participação no poço de petróleo na ilha de Java cuja exploração foi apontada por cientistas como tendo sido o fator causador da erupção de um vulcão de lama que soterrou quatro vilarejos no lesta da ilha em 2006.

Pedale-se com um barulho destes.

 

Escrito por Bali 40 graus às 11h46

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Procura-se

Qual é a posição brasileira sobre a inclusão da redução do desmatamento no regime de redução de emissões pós-2012? O que a ministra Marina Silva defenderá em Bali sobre a questão florestal? Não sabemos. A delegação do Brasil na Indonésia só mandou sinais contraditórios sobre o tema até agora. Ora diz que é fundamental ter um mecanismo funcionando antes de 2012 para compensar países que reduzirem suas taxas de desmatamento, ora diz que Bali não é o fórum para acordar esse assunto (justiça seja feita, o chefe da Convenção do Clima, Yvo de Boer, disse hoje que não espera que Bali produza um mecanismo de redução de emissões por desmatamento, ou RED).

Sete jornalistas brasileiros em Bali tentaram ontem pedir esclarecimentos ao embaixador extraordinário do clima, Sérgio Serra, mas o diplomata não compareceu ao próprio briefing.

Escrito por Bali 40 graus às 09h51

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Watson, o filósofo

A frase do dia foi de Harlan Watson, negociador do clima do governo Bush. Questionado por um jornalista sobre como os EUA viam o fato de a Austrália ter dito que apoiava as chamadas metas de Viena (que prevêem redução de 25% a 40% das emissões dos países industrializados como baliza para o pós-Kyoto), saiu-se com esta: "Eu não quero falar pela Austrália, mas há diferenças de interpretação sobre o que foi acordado em Viena". É mais ou menos equivalente a dizer: "Há diferenças de interpretação sobre o que de fato venha a ser uma banana ou um abacaxi".

Escrito por Bali 40 graus às 09h31

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E o Fóssil do Dia é...

A AUSTRÁLIA! Isso mesmo: aquele país que acaba de ratificar o Protocolo de Kyoto ganhou da rede de ONGs Climate Action Network o troféu Fóssil do Dia de hoje, por ter voltado atrás em tempo recorde em suas posições sobre a meta de 25% a 40% de corte de emissões. De manhã cedo, a delegação australiana dissera que apoiava esse objetivo de corte, só para ser desautorizada poucas horas depois pelo premiê Kevin Rudd, que se saiu com um "não me comprometam".

Cá entre nós, os ambientalistas estão sendo duros demais com os vizinhos de baixo da Indonésia. É bom lembrar que até segunda-feira o maior exportador do mundo de carvão não era nem mesmo parte do Protocolo de Kyoto. Não dá pra querer tudo ao mesmo tempo agora.

Escrito por Bali 40 graus às 08h03

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O dragão capitula

Circulou hoje de manhã pelos corredores o novo "non-paper", ou seja, o rascunho oficial pero no mucho, da posição chinesa em Bali. O gigante engolidor de energia da Ásia suavizou ainda mais suas posições. Já concordou que a negociação das novas metas para os países ricos no Protocolo de Kyoto (o chamado AWG) e a de compromissos para os países em desenvolvimento (o chamado Diálogo para a Implementação da Convenção) devem ambas terminar em 2009, convertendo-se em um processo formal logo depois. Até ontem, os chineses estavam dizendo que o Diálogo deveria prosseguir até 2010, caso em que não daria tempo de incluir os compromissos "novos e verificáveis" dos chineses no acordo pós-Kyoto para 2013-2018. A China também pede cortes de 25% a 40% nas emissões do Anexo 1 e diz explicitamente que "Os EUA e a Austrália devem ser envolvidos igualmente com outros países desenvolvidos levando em conta suas emissões históricas e emissões per capita atuais".

Parece que as potências do G77 estão começando a falar a mesma língua.

 

Escrito por Bali 40 graus às 07h57

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Carbono zero, suor dez

Não chega a fazer 40 graus em Bali, ao contrário do que sugere o título deste blog, mas o calor de trinta-e-tantos mais uma umidade manauara (afinal, estamos na selva) dá ao infeliz que anda de um lado para o outro em Nusa Dua, onde acontece a conferência, a sensação permanente de estar em uma sauna.

Para complicar ainda mais as coisas, a organização da COP-13 resolveu fazer as reuniões formais em um resort e os eventos paralelos em outro, a uns 20 minutos de caminhada do "oficial". Os resultados são dois: pessoas encharcadas de suor em todos os cantos e taxistas com uma estranha cara de felicidade permanente.

Para facilitar os deslocamentos de um lado a outro sem emitir CO2, o governo indonésio teve a idéia de deixar centenas de bicicletas à disposição dos delegados em vários pontos do distrito de Nusa Dua. Até que colou. O problema é que tem horário: depois das 18h, o serviço é suspenso. E voltamos ao que os cientistas chamariam de "cenário business as usual de emissões por transporte".

 

Escrito por Bali 40 graus às 06h58

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Não era bem isso

O chefe da delegação brasileira em Bali, Luiz Alberto Figueiredo, disse que a secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Thelma Krug, foi mal interpretada em suas declarações de ontem. Krug disse que era pré-maturo discutir mitigação de emissões por desmatamento reduzido no chamado Mapa do Caminho de Bali, o rascunho de acordo pós-2012 que se tenta negociar aqui. Para muita gente ficou a impressão de que ela é contra agir em florestas a menos que os países ricos ajam em suas emissões de combustíveis fósseis. Figuriredo garante que não há divergências internas na delegação e que redução de desmatamento é o mecanismo de mitigação por excelência do Brasil. "Estamos juntos nisso".

Ah, bom.

 

 

Escrito por Bali 40 graus às 01h30

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Mas tinha de ser tão longe?

 

Olá. Bem-vindos a “Bali, 40 Graus”, o blog da editoria de Ciência de Folha de S.Paulo criado especialmente para a 13ª. Conferência das Partes da Convenção do Clima das Nações Unidas.

 

Aqui você vai acompanhar mais de perto as duas semanas de um encontro na Indonésia cujo objetivo nada modesto é tentar salvar o planeta. E não, eu não estou exagerando. Os diplomatas e ministros reunidos a partir de hoje em Bali tentarão começar a negociar o substituto do Protocolo de Kyoto, o vilipendiado tratado climático internacional que pelo clima mesmo fez muito pouco e que vence em 2012.

 

Bali tentará lançar um mandato negociador, ou seja, um acordo político de datas e objetivos gerais que esse acordo pós-2012 terá. Há várias perguntas que podem ser feitas sobre o potencial de sucesso dessa reunião. Mas a que eu gostaria de fazer aqui hoje é outra: Precisava ser tão longe?

 

Alguém mais versado em diplomacia do que eu diria que sim. A etiqueta da ONU determina que os continentes façam uma espécie de rodízio para sediar esse tipo de reunião. A COP-12, anterior a Bali, foi no Quênia. A COP-11 foi no Canadá. Agora é a vez da Ásia. Muito justo. Mas puxa vida: a Ásia é GRANDE. Não precisava ser na OUTRA PONTA dela, né? Fala sério. Por que não na Turquia, por exemplo?

 

Quem quer um argumento ambiental contra esse ajuntamento de 15 mil pessoas na ilha-resort por excelência da Indonésia fique com este: em meu vôo de ida e volta São Paulo-Paris-Hong Kong-Bali eu terei emitido nada menos que seis toneladas de gás carbônico. É mais do que um chinês médio emite em um ano. E mais do que um etíope médio emite em 6 décadas. Multiplique mais ou menos esse número pelo de seres humanos vindos das Américas e da Europa e você terá mais ou menos a dimensão do estrago no clima causado pela conferência para salvar clima.

 

O secretário-executivo da Convenção, o holandês Yvo de Boer (4 toneladas para ir e voltar da Alemanha, onde ele mora), liberou os delegados em Bali de usar gravata, para economizar ar-condicionado, por tabela poupar emissões. Agradeço pela gravata, cujo uso em países tropicais é uma estupidez de qualquer forma, mas desconfio que se o secretário estivesse realmente a fim de mitigar o efeito estufa, teria convocado uma teleconferência.

 

MATA SEM CACHORRO

A secretária de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Thelma Krug, disse hoje na plenária, em alto e bom som, que é "prematuro" discutir florestas agora no período pós-Kyoto. Ou eu entendi errado ou tem coisa estranha aí, já que Krug representa o mesmo governo que quer ver a proposta de compensação por redução do desmatamento plenamente implementada e funcional antes do período pós-2012.

 

PAROLE, PAROLE, PAROLE

Em uma mesa de press releases na abafadérrima sala de imprensa do The Westin, resort que abriga o centro de convenções onde se realiza a conferência, um documento entre tantos chama atenção por seu colorido. Trata-se da peça de propaganda do governo Bush (com direito a DVD) trombeteando as espetaculares ações americanas na área de "segurança energética, desenvolvimento limpo e mudança climática". Nesta ordem.

 

PAROLE, PAROLE, PIÙ PAROLE

Diz a edição desta terça do Earth Negotiations Bulletin que a Arábia Saudita (sempre eles!) protestou na segunda-feira que os países ricos estavam seqüestrando a Convenção do Clima e transformando-a numa convenção de... energia. Vou deixar você ler de novo.

 

E O FÓSSIL VAI PARA...

O Japão, pátria-mãe do Protocolo de Kyoto, foi eleito hoje o Fóssil do Dia pela rede de ONGs Climate Action Network. O motivo da honraria dúbia foi a proposta japonesa, ontem, de "ir além do Protocolo de Kyoto", listando em seguida elementos de um acordo pós-2012 sem limites absolutos de redução de emissões. 

O Japão está numa situação delicada, porque não tem mais onde cortar emissões de forma "pagável". É um país insular, sem recursos naturais e portanto de energia cara. Mas cara de pau tem limite, né?

 

MOVIMENTO DOS SEM-MALA

Aconteceu comigo pela primeira vez hoje (ontem no horário da Indonésia). Pouco antes de pousar em Hong Kong, uma simpática aeromoça da Air France veio me dizer, encabulada, que minha mala havia, comment dire?, ficado para trás. O resultado foi que cheguei a Bali mais ou menos com a roupa do corpo. Contei da situação para Gustavo Faleiros, repórter do site O Eco, que na mesma hora perguntou: "Você veio de Air France, né?" Com ele havia acontecido a mesma coisa, dois dias antes. À noite, o embaixador Sérgio Serra, enviado especial do Itamaraty para o clima, deu um depoimento semelhante. Também com a Air France, também poucos dias atrás.

É nisso que dá viajar em empresa de Terceiro Mundo.

 

 

Escrito por Bali 40 graus às 15h16

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PERFIL

Claudio Angelo Claudio Angelo, 32, é editor de Ciência da Folha. Jornalista formado pela Universidade de São Paulo, cobre assuntos de ciência e ambiente desde 1998.

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